Tess Holliday e a gordofobia da nossa sociedade.

Tess Holliday, o mais famoso ícone plus size da atualidade, acumula mais de 2 milhões de seguidores no seu Instagram. Muito amor envolvido? Nem tanto: a modelo e a ativista enfrenta manadas de haters todos os dias e se viu no centro de algumas polêmicas em nível mundial. Olhar para elas, agora, com certo distanciamento histórico, nos ajuda a entender melhor a ferida social da gordofobia.

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O preconceito sofrido por gordos, especialmente mulheres, é um dos últimos “permitidos” pela sociedade no novo milênio, apesar de esforços monumentais no sentido contrário de ativistas mundo a fora. É ilegal, embora ainda infelizmente cotidiano, discriminar uma pessoa por sua raça, religião, origem ou orientação sexual.

Tess Holliday: a garota da capa.

Tess acumula no currículo capas de revistas de todos os portes, contudo, nenhuma delas até agora foi mais polêmica do que a da “Cosmo” britânica de outubro de 2018. O que seria uma vitória para mulheres acima do peso, com um mísero retângulo num mar de gente magra nas melhores prateleiras dedicadas à moda, tornou-se a maior polêmica do universo fashion naquele ano, com alegações severas de que a publicação estava “promovendo a obesidade”.

A voz mais importante a capitanear essa corrente de críticas foi do apresentador Piers Morgan, que alegou, tanto em suas redes sociais quanto no seu programa “Good Morning Britain”, que a aparição da modelo na capa era tão nociva quanto a celebração de modelos anoréxicas.

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O tweet completo do apresentador britânico Piers Morgan sobre a capa de Tess.

A controvérsia a respeito de Tess e nunca a respeito de modelos nem tão plus size como Ashley Graham, por exemplo, questiona quais os limites morais da aceitação midiática do apropriado movimento “body positive”. Tess é gorda demais para existir como mulher?

Sim, gordas agora são figurinhas fáceis completando um casting de comercial, bem no fundo, só pra bater cota. Contudo, só se for realmente tão gorda assim. Não pode ter barriga. Tem que ficar provando repetidamente que está saudável e que vai a academia todos os dias. Tem que dar atestado de boa saúde.

Esse atestado passa longe de ser necessário para amulheres magras. Sara Hyland já transplantou dois rins, Lady Gaga já cancelou shows devido a sua fibromialgia. Isso não as impediu de serem ícones de beleza.

Sarah e Gaga nas capas da Cosmopolitan.

Sarah e Gaga nas capas da Cosmopolitan.

“Não é culpa delas”, pode-se dizer. Então, o que dizer de Gisele Bundchen fumando nos seus mais gloriosos anos como modelo, Kate Moss e cocaína? Lista de garotas da capa alcoólatras, agora em recuperação do contrário talvez não saberíamos, é imensa e tem nomes como Naomi Campbel e Demi Lovato. Alguém lembra da cleptomania de Wynona Rider? Nah. Mulheres magras/jovens/bonitas são desculpadas por seus vícios, a gorda não.

Amy, Naomi e Kate: em capas da Vogue

Amy, Naomi e Kate: em capas da Vogue

Enquanto estiverem bonitas dentro do padrão vigente e produtivas, essas mulheres, tão vítimas da indústria quanto as excluídas, são “perdoadas” por seus excessos. Amy Winehouse só passou a ser um “estorvo” e migrar das páginas de moda pra tabloides quando ficou banguela e magra demais. Enquanto tinha o visual heroin chic, estava tudo ok. Craque não é chique, então? É vicio de pobre?

É importante refletir os motivos pelos quais Tess Holliday e outras plus size chegaram às capas de revistas importantes somente nos últimos cinco anos, embora o movimento fat power já exista desde os anos 60. Tess, especificamente, migrou da TV para as redes sociais e só então foi “aceita” no mundo da moda, quando contratada pela agência MILk em 2015. Ela foi agregada ao mercado fashion porque já trazia consigo todo um público jovem, ativo e sedento de aprovação.

A chegada de mulheres gordas em pequenas aparições devidamente controladas nas publicações de alta moda reflete uma tentativa de angariar alguma simpatia de novos públicos em um cenário onde essas gigantes do passado perdem cada vez mais a relevância no jogo de deitar as cartas no mercado.

Nomes de peso como Vogue hoje não são mais bíblias de tendências: as redes sociais fizeram  com que elas saiam diretamente dos bureaus para as ruas sem necessidade de atravessadores caros como essas gigantes do passado. É mais barato, eficaz e ágil fazer parcerias com influenciadoras. As revistas não levantam mais o estandarte de lançar uma tendência, elas apenas reportam o que todo mundo com um olho mais ou menos treinado consegue ver no próprio feed do Instagram.

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Quando a Cosmopolitan coloca uma obesa na capa de uma edição ela não está querendo fazer uma provocação ou uma declaração pública efusiva de apoio, ela está apenas querendo capitalizar m cima do crescente público body positive nas redes.

Essas publicações só estão nos dando um cinco minutos porque estão tentando se reinventar para continuar sobrevivendo. Não aplauda. Too little, too late.

Morangos da discórdia

E a treta não deu folga para Holliday nem na pandemia. O vestido de moranguinhos que ela havia usado para o Grammy 2020, de repente, no meio da quarentena, virou um hit de vendas. Efeito tardio ? Não, jovens tiktokers usando. Magros, evidentemente. Muito jovens também.

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Tess e a influenciadora Shaanti Chaitram com o mesmo vestido de moranguinhos.

Meses antes, quando Tess Holliday usou o famigerado print no tapete vermelho, foi colocada na lista das mais mau vestidas da temporada. Porque, o mesmo exato modelo vira febre absoluta meses depois quando estampando outros tipos de corpos? Por que o vestido de morangos na obesa é ridícula e na magra da geração Z é desejo de consumo?

E essa pergunta não teria uma resposta minha muito contundente se não fosse uma fila grande na farmácia. A minha frente, duas mulheres gordas de meia idade, avistaram uma embalagem de algum produto que trazia no verso “mulheres reais”. Uma delas pegou o produto e falou “Que gorda ridícula, nem dá vontade comprar o produto”.

Por muito tempo, como pessoa de marketing, achei que as gordas haviam sofrido tanto preconceito que já não conseguiam mais ver beleza em seus corpos ou em quaisquer outros que carregassem essa semelhança. É fato: peças fotografadas em modelos realmente gordas podem render mais cliques mas não geram vendas. O problema somos nós mesmos?

Talvez não. A aceitação do corpo gordo no mercado de publicidade, assim como do corpo negro, é tão falsa que não convence nem aos próprios segregados. Será que os publicitários e gerentes de marketing envolvidos na campanha são gordos? Contratariam gordos? Celebrariam suas filhas gordas?

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É hipócrita colocar uma negra como protagonista de novela quando na realidade o preconceito existe e parece ter encontrado seu piso de redução. Ele pode ser velado, contudo, existe. Com o obeso não é diferente. O que, como gordos, sentimos todos os dias é um mundo que não é feito para nós, seja fisicamente numa catraca de ônibus ou na sociedade quando nos é negado o direito a concorrência justa numa seleção de vaga de trabalho. Inclusive, senão principalmente, nessas empresas que colocam uma semi-gorda no anúncio.

Depois te todo escracho que sofremos, devemos olhar para um produto e nos sentirmos celebradas e agradecidas que enfim alguém nos notou como seres humanos? Somos tantos que não podemos mais ser ignorados como consumidores, o mercado também precisa do dinheiro do gordo, do LGBTQ, do grisalho. Então nos dá esse tímido aceno com uma mão e com a outra nos alcança a carteira.

O que o embrolho com a modelo nos aponta é que não existe moda inclusiva em sociedade exclusiva. A revolução não começa da publicidade, acaba nela.

Em tempo: depois da flopada na divulgação com Tess e a pandemia, a estilista Lirika Matoshi resolveu doar o vestido para influenciadoras e emplacou o maior hit da temporada, segundo contou à Vogue. Alguém acha que ela vai querer se envolver com gorda de novo? Quando criticaram Holliday, também nocautearam todo segmento plus size de quebra.

Eff your beauty standarts, Conka.

Em 2014, antes de pertencer ao mercado internacional das publicações de moda, Tess Holliday já era uma força de números com milhares de seguidores fiéis e atenção da mídia. De olho nos números, resolveu fazer uma colab para vender uma camiseta plus size com seu bordão “Eff your beauty standarts”, algo como “Fod@-se seus padrões de beleza”.

A camiseta polêmica de Tess Holliday

A camiseta polêmica de Tess Holliday

Em pouquíssimo tempo, 3 mil unidades foram vendidas, porém, cerca de 140 delas nunca foram entregues. Parte da renda, que deveria ser revertida para entidades que dão assistência para vítimas de violência doméstica, como ela se declara ser, também nunca foi integralmente doada.

O desastre comercial, que deveria parar nos tribunais, parou mesmo é na internet, onde Tess sofreu todo tipo de ataque pessoal possível, ainda que ela apenas tenha emprestado sue nome para a marca, o que não é pouca coisa. Ela alega inexperiência tanto com o ramo dos negócios quanto com o gerenciamento da crise que se seguiu.

Usando como ponto de partida posts de consumidores frustrados/enganados, começaram a pipocar todo o tipo de questionamento sobre o caráter da modelo. Alegaram que ela nunca realmente sofreu bullying na escola, que exige photoshop extremo em suas fotos, que some com o dinheiro da galera, que é uma pessoa sem ética.

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Bom, um docinho ela não deve ser para ter sobrevivido a tudo isso. Pra vencer e crescer sobre tanto ódio, certeza que tem no mínimo personalidade forte e algum egoísmo. Não existe milionário/celebridade boa gente. Gente fofinha não se cria nesse meio e não costuma ter vocação pra isso.

Nas mensagens com críticas de consumidores, que podem ser lidas até hoje, muitas mulheres gordas que alegam ter comprado a camiseta não poupam termos gordofóbicos. Deixa de ser gordofobia quando a pessoa que fala é gorda também? Por que 140 camisetas perdidas não foram parar em algo que seja um Procon americano e viraram um boom de haters?

O fenômeno Karol Conká, ajuda a entender muito. Num pais agonizante, literalmente sem ar, todos estavam unidos para odiar uma mulher negra, militante. Ela matou alguém? Estuprou? Desviou verbas da saúde? O que essa pessoa humana poderia ter feito de tão ruim pra ter a vida escorraçada? Porque outros participantes que fizeram coisas piores no reality não receberam o mesmo ódio? Porque assassinos em série tem fãs e noivas na prisão ainda que nunca tenham se arrependido?

É mais fácil odiar mulher negra, mulher gorda. Elas são as genis do mundo. Elas aguentam? E tacando pedra nelas, nós, também negras, mulheres, gordas, finalmente estamos do lado “certo” da maioria. Pra variar podemos ser martelo ao invés do prego. Isso não existe. Nós sempre seremos o prego. Pelo menos, até que a gente perceba isso.

O discurso de ódio é o que fode sua vida, não engrosse esse coro.

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