Modelos (Nem Tão) Plus Size: onde estão as gordas de verdade?

Digite “moda plus size” no Google Images (vide imagem abaixo). Só vai aparecer gorda mesmo na terceira linha. É um jeito bem fácil de comprovar algo que a gente já sente na pele há muito tempo: as modelos plus size não são tão plus assim. Por que?

A elite das profissionais deste segmento, ou seja, as que trabalham com mais frequência e com cachês melhores orbitam sempre entre 44 e 48. Agenciando as primeiras modelos GG do país há vinte anos atrás, eu já notava que havia a mítica “loira tamanho 46”. O s clientes nem queriam ver os outros composites fora deste padrão.

Testemunhei carreiras de mulheres incríveis simplesmente floparem porque eram acima do 50. Entre as mais destacadas hoje, gorda mesmo só a Mayara Russi e a Fluvia Lacerda, que quando começaram eram ainda dentro do limite imposto pelo mercado e tem um background de presença de mídia por trás delas. São a exceção que só comprovam a regra.

mayara russi

Mayara Russi, uma das poucas modelos plus size bem sucedidas a usar manequim 50.

Qual tamanho ideal para uma modelo plus?

Existe muita discussão ao redor do que seria considerado plus size. Embora cada um de nós tenha uma percepção, ao pé da letra, significa tamanho maior. Teoricamente, passou de 40, plus size é. O termo não é sinônimo de gorda, embora seja amplamente usado como um desnecessário eufemismo. Internacionalmente está se convencionando chamar manequim 44 ao 46 de curvy e acima disto então plus size. Porém é algo ainda nebuloso.

Por muito tempo, incluir essas mulheres em campanhas foi meu desafio pessoal. A desculpa dos contratantes era sempre a mesma, plausível, mas ainda assim, desconfortável: a modelo deve entrar na roupa piloto que sempre é o menor tamanho dessas confecções. Gerar um tamanho maior para as fotos atrasaria o processo em pelo menos uma semana, tempo crucial que o fast fashion não pode se dar ao luxo de perder.

As "gordas" das marcas gringas Asos e Forever 21 (não coloquei marca nacional pra não ofender ninguém).

As “gordas” das marcas gringas Asos e Forever 21 (não coloquei marca nacional pra não ofender ninguém).

Contudo, pra mim, na época usuária de manequim 60, eu achava mesmo que era preconceito. As donas das marcas, as estilistas, a galera das agências: é todo mundo magro. Nas reuniões e castings sempre rolava termos como “pança”, “banhinha”, “barriguda”. O que na nossa boca é absolutamente normal, mas, em uma sala de gente magra vira um chicote na cara.

Momento da virada

Foi então que o Facebook aconteceu nas nossas vidas e deu voz a muito imbecil certeza, porém, também abriu espaço para críticas massivas de outras gordas como eu você que se sentiam mal representadas nessas campanhas. E nem é por mimimi (também é, mas não só): é que fica impossível da gente se visualizar e comprar uma roupa online em alguém que não tem um biótipo nem de longe parecido com o nosso. Além de ser ofensivo é mercadologicamente burro.

Gisele Hosp, Duda Padilha e Kethlen Filisbino

Gisele Hosp, Duda Padilha e Kethlen Filisbino

A repercussão negativa era tão maciça que tinha um cliente meu que teve que parar de postar foto da sua vitrine porque os manequins eram antigos (a loja é bem tradicional) e tamanho 44, o que era o maior que se conseguia nos anos 90. A galera sentava o cacete na maldade e as fotos simplesmente sumiram.

Esse processo aconteceu com várias grifes e elas então venceram o cabo do bom preconceito, burlaram seus calendários e resolveram apostar as fichas em mulheres mais gordas. A trend era agora contratar gorda “de verdade”. Enfim gordas em campanhas para gordas.

Um dos meus maiores clientes, responsável por uma loja virtual bem conhecida fotografou toda a vitrine nelas, centenas de peças de roupa em meninas do 54 ao 58. Chuva de likes! Comentários lindos, increase em números nas mídias para todo lado. Sucesso. Ou não.

Dois meses depois tivemos que fotografar tudo novamente em meninas do 46 ao 50. As peças simplesmente encalharam. De verdade, não vendia NADA.

O verdadeiro motivo pelos quais as modelos mais requisitadas do mercado plus size não são gordas não é pelo preconceito do contratante ou pela praticidade, é por nossa causa.

Talvez você leitora seja mais conectada com o movimento plus e ache isso bobagem. Nós estamos imersas em um caldeirão de cultura body positive, estamos em uma bolha. Mas o grande público consumidor está fora desse meio.

Para essas mulheres, se a roupa mostrar pneuzinhos, barriga, flacidez, automaticamente o desejo de consumo vai a ZERO. Elas podem dar like em uma foto de uma mulher obesa e achar o máximo. No entanto, não desejam parecer em nada com ela.

Duvida de mim? Vamos de estudo gringo pra provar. O primeiro, encampado pelas universidades de Cologne na Alemanha e Erasmus na Holanda fez um experimento buscando medir o impacto do tamanho das modelos em anúncios à autoestima de mulheres. A pesquisa ocorreu em 2009, onde havia uma franca discussão de abolir modelos consideradas magras demais das passarelas de alta costura. Uma polêmica que não deu em nada aliás.

Os pesquisadores confirmaram na época que embora modelos extremamente magras produziam um efeito psicológico negativo na maioria das mulheres, as gordinhas causavam reações piores ainda. Especialmente quando a entrevista era também acima do peso. Outros estudos europeus deste período também obtiveram resultados semelhantes.

No entanto, mais recentemente, a Universidade do estado da Flórida publicou o resultado de uma pesquisa semelhante, porém, com resultados bem diferentes. O que os especialistas comprovaram foi que ao visualizar mulheres plus, as entrevistadas tinha reações mais positivas, se comparavam menos às modelos e o que é vital quando se fala em marketing: prestavam mais atenção à peça publicitária em si.

Aparentemente antagônicos, os estudos servem como base pra entender esse fenômeno das mulheres modernas e suas jornadas não lineares na busca pela aceitação do próprio corpo e mais, de conferirem às suas semelhantes um olhar menos crítico.

Com a inclusão de mulheres curvilíneas e gordinhas na mídia, a tal bolha de body positivity está aumentando. Estamos testemunhando a evolução de uma padrão para algo mais democrático.

A modelo plus size amreicana Tess Holiday, a primeira mulher realmente gorda a entrar no circuito fashion. Revolução!

A modelo plus size amreicana Tess Holiday, a primeira mulher realmente gorda a entrar no circuito fashion. Revolução! – Foto ABC news.

Espaço para Todas.

Por isso, essa dualidade entre o sucesso de aprovação nas mídias e o fracasso de vendas das marcas que apostaram em gordas realmente gordas. O maior preconceito, o maior desafio no nosso caminho começa naquela encarada diária no espelho e não na caixa de comentários. Vamos deixar as modelos nem tão plus sizes em paz?

É mais produtivo incentivar outras mulheres e a si mesma a quebrar tabus, a amar o próprio corpo sem hipocrisia, uma tarefa bem difícil. Quando nós nos sentirmos realmente bonitas e empoderadas independente do manequim, acredite, as marcas irão acompanhar. Dinheiro de magro pesa o mesmo que o dinheiro do gordo. Empresário pode ter preconceito, mas não é idiota.

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