Manequim 60: a saga das mulheres ignoradas.

Nasci gorda. Arrisco a dizer que morrerei assim. E como todas nós, meu peso sempre variou conforme a maré dos anos naquela relação bem doentia com comida. Quem nunca? Nos últimos vinte anos estive sempre na casa dos 3 dígitos e durante boa parte deles usei manequim 60 com cerca de 140kgs.

Usar manequim 60 é coisa pra macho. Você é rejeitada por ser gorda até nas lojas de gorda, que, em sua maioria não vão além do 54. Hoje tenho muitos clientes de moda plus size que vendem até 50. Meu bem, 50 eu compro na Renner. A pior parte sempre foi comprar calcinha. Se você usa do 56 em diante melhor andar sem! Não fazem.

Eu (quando usava manequim 60, lindamente), Fernanda Asakura e Fatima Palma; antes de começar um dia de fotos.

Eu (quando usava manequim 60, lindamente), Fernanda Asakura e Fatima Palma; antes de começar um dia de fotos.

Você é discriminada por suas outras amigas menos gordas que você. Elas se tornam tão críticas conosco quanto suas amigas magrelas são com elas. Certa vez, uma cliente do Dia de Modelo comentou publicamente que eu não servia para fotógrafa porque ficava sentada. Se eu fosse homem, se eu fosse magra, ela jamais comentaria isso.

Sempre fui a mais gorda da escola, do trabalho, do prédio, do casal, da pista de dança, da rua, do avião. Onde quer que eu estivesse, eu sempre era ponto de referência. E, claro, isso tem o lado ruim, mas também é legal ser sempre notada também.

Mas, eu era livre. Ninguém me perguntava porque eu não emagrecia, ninguém me julgava pelo meu look, pelo contrário: qualquer mer#@ que eu usasse era um lacre. Quando você atinge um grau de obesidade as pessoas meio que desistem de você e isso é maravilhoso. Libertador.

Eu podia usar acessórios grandes como maxi colares e não ficava over. Ninguém me convidava pra passeio chato na cachoeira porque achavam que eu não ia dar conta. As namoradas dos meus amigos me amavam e nunca tiveram ciúme. O simples fato de usar biquíni já me fazia inspiradora pra muita gente. Podem me chamar de iludida, mas sentia muito menos preconceito e alfinetada que hoje, usando 50.

Eu me esbaldava em liquidações plus size: os maiores tamanhos sempre encalham. E sabem porquê? Porque usando manequim 60, muitas vezes, você desiste de você também. Perde a coragem de tentar looks novos e tem menos vaidade. Você acaba se descolando tanto da mulher que queria ser que simplesmente passa a viver no automático.

Como emagreci e sou pobrinha queria vender minhas roupas maiores, muitas delas ainda com etiqueta, pra poder comprar novas. Óbvio que não ia consertar o vazamento no banheiro, não. Mas, pasmem: toda mulher acima do 56 que abordo diz que usa 52. Por isso as lojas plus tem aqueles tamanhos fictícios. Hein?

A vida dessas mulheres passa a ser uma corrida desesperada à cirurgia do estômago. E só. Vamos parar com isso já!

Eu tive que emagrecer, a vida me impôs isso. Tive problema de saúde (não relacionado ao peso inclusive). Nunca menti meu peso ou manequim. Isso é coisa de covarde. E quando se usa manequim 60 isso não é uma opção.

Tamanho 60? Temos!

Segue uma listinha (bem curta mesmo) das marcas onde eu sempre encontrava algo 60:

maria abacaxita

Foto da coleção de verão da Maria Abacaxita, grife plus size que produz moda divertida até o manequim 60.

  • Kauê Plus Size : trabalhando lá por mais de ez anos, 90% das minhas coisas são de lá. A única grande marca que aposta em quem veste acima do 56. Tem preço competitivo para dentro deste mercado e uma ótima loja online. Além das roupas para meninos e meninas, ainda tem a única meia-calça que veste até 56 de uma marca que chama ACtive wear.
  • Abacaxita : passei a usar somente quando já estava emagrecendo, mas vejo mulheres com manequins maiores comprarem bastante. Os modelinhos valorizam a cintura e tem um caimento muito legal, tanto nas 48 como nas 60.
  • Flaminga : os preços por lá são bem salgados, mas o atendimento é ótimo, tudo é muito organizado, as fotos e as informações das peças são simples e objetivas. Comprei jeans, maiôs e um modelador.
  • Posthaus :comprava bastante da marca Margherite. O tecidos são bem simples, as roupas não duram muito, mas o precinho é ótimo e sempre tem promo com frete grátis. Os cintos são ótimos.

Existem marcas novas que começaram a trabalhar com tamanhos a partir do 56 depois que emagreci então ainda não conheço, mas posso trazer um post pra vocês: só pedir =)

 

 

4 comentários em: “Manequim 60: a saga das mulheres ignoradas.

  1. É uma luta muito grande achar roupas que me sirvam. Pra comprar uma calça é uma batalha sem fim! As lojas anunciam “roupas plus size” ou “tamanhos especiais”, eu chego na esperança de achar algo bacana e, nada serve! Saio frustada e a caminho de outra loja, pra mais uma batalha! Sinto que não me encaixo nem em “meu mundo” que se diz para “godelicias” mas não me dão opção sobre o meu manequim 60!! E quando acha?????? Rapaiz, o coração chega a parar pelo preço absurdo que põem em uma peça que nem de grife é! Mal acabada, mal feita e com cores e estampas horrorosas! Meu Deus! Não somos um bicho de sete cabeças para ser tão difícil assim achar algo bonito! Somos mulheres lindas tanto quanto quem usa um manequim 36! E as que tbm veste no mesmo tamanho , aindam mentem, se matam para caber em um manequim menor! Aff! Não procuro aceitação, porque quem tem que aceitar sou eu mesma, procuro apenas ficar mais bonita do que já sou, com roupas e acessórios adequados, mas a sociedade não colabora!

  2. Olá, Laura! Sei exatamente como você se sente. Achei ótimo o que você escreveu, porque a maioria de nós tende a culpar a si mesma, por isso ainda é tão raro achar boas opções acima do 54. Não é por falta de público é por falta de uma mente confiante como a sua. Unidas vamos fazer deste mundo um lugar muito mais democrático e fashion, né?!
    Beijos e super obrigada pela participação!
    Equipe CGG

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *